sábado, 28 de abril de 2012

No panteão das artes gráficas

Sempre fui fã do trabalho de João Baptista da Costa Aguiar. Desde que comecei a estudar produção editorial, o trabalho dele foi — sem sombra de dúvida — o que sempre me causou maior impacto.

João Baptista da Costa Aguiar 
- Desenho Gráfico (1980-2006), 
publicado pela Editora 
Senac São Paulo
Foi através de uma pesquisa envolvendo as criações de artistas gráficos brasileiros para um trabalho acadêmico que entrei em contato com o livro João Baptista da Costa Aguiar — Desenho gráfico (1980-2006), publicado pela Editora Senac. Desde então, fico cada vez mais fascinado pela capacidade de criação que sua obra gráfica apresenta.

Tudo porque, além da inventividade representada em produções como as capas para A Marca Humana, do norte-americano Philip Roth, e Timbuktu, de Paul Auster, podemos conhecer melhor o repertório por trás das obras deste artista gráfico: os critérios levados em conta durante a concepção de um projeto, além das interferências que ocorrem durante o trabalho com design editorial — no que diz respeito à relação entre autor, editor e artista gráfico (inserida nos procedimentos que fazem parte da rotina do processo de produção de um livro). 

No trabalho de João Baptista, nota-se um talento especial na concepção de projetos para coleções literárias. Para cada autor, uma padrão gráfico diferente — ora levando em conta a subjetividade, ora apresentando um discurso que conceitue determinado projeto. É o que acontece com a capa produzida para Um Crime Delicado, do escritor carioca Sérgio Sant'Anna. O designer parte do enredo, centrado no universo da indústria cultural, e que tem como personagens um crítico de arte, um artista plástico e uma modelo. 


Desde a criação da capa para A Marca Humana
projeto editorial para as traduções dos livros
 de Roth segue o padrão de manchas.






Para Timbuktu, um osso
em forma de T sugere um
movimento ascendente.
Referência ao cão que dá
título ao livro e a um espaço
imaginário, espécie de paraíso
em que cães e humanos
falariam a mesma língua.













Ainda sobre Um Crime Delicado, cuja capa se apropria da pintura Pigmaleão e Galatéia (1860), do francês Jean-Léon Gerôme, faz-se referência ao caráter perverso e amoral dos personagens. Na quarta-capa, a tela As Meninas (1656), objeto de análise de centenas de estudos teóricos (e imagem-cânone da pintura ocidental), é exposta dentro de uma moldura dourada. Completa-se, então, o jogo de imagens, que brinca com as diversas interpretações dedicadas à obra do espanhol Diego Velázquez.


Capa para Um Crime Delicado,
que se apropria do repertório
de acadêmicos e críticos de 
arte para representar uma 
história ambientada no universo
da indústria cultural.














Discursos de menor complexidade também podem render bons projetos. É que se vê na série de logos criada para a Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo (1989-1992) e nos selos criados para a editora Companhia das Letras, com vinhetas e desenhos que ilustram uma concepção de design baseada no figurativismo. Vale comentar ainda os bons exemplos de combinação tipográfica nas capas criadas para a coleção Jornalismo Literário, em que Baptista abusa do conhecimento da tipografia, adquirido na época em que pintava os letreiros de programas da extinta TV Tupi.

Série de logotipos para a SMC se vale da associação de ícones a um tema específico. Para espetáculos de dança, a imagem de uma bailarina; para literatura, o rosto do escritor Oswald de Andrade. Este conceito de design figurativo já havia sido utilizado três anos antes nos selos da editora Companhia das Letras.

Marcado pela linguagem dos cartazes de rua, o trabalho de João Baptista da Costa Aguiar representa a força criativa das artes gráficas no Brasil — por meio de um trabalho com forte marca pessoal, fugindo dos cânones funcionalistas do design gráfico brasileiro.

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