sábado, 22 de dezembro de 2012

João Antônio em edição imperdível

Contos reunidos traz textos
inéditos do autor e encarte
com manuscritos
“João Antônio faz para as esferas malditas da sociedade urbana o que Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão, isto é, elabora uma linguagem que parece brotar espontaneamente do meio em que é usada,mas na verdade se torna língua geral dos homens, por ser fruto de uma estilização eficiente”. É o que diz Antonio Candido na quarta capa da edição primorosa que acaba de ser lançada pela Cosac Naify.

Para além das qualidades literárias do texto, o que chama a atenção nesta edição é a beleza do projeto gráfico e o acabamento impecável. O volume traz uma série de ilustrações baseadas em material de arquivo do próprio autor. São manuscritos, bilhetes de loteria, anotações em versos de maço de cigarro. Além disso, foi incluído um livreto intitulado Vocabulário das ruasuma caderneta de endereços e telefones onde autor registrava gírias e expressões que ouvia em seu trânsito pelos ambientes que frequentou.



"Valsa Negra": entre a paranoia e a obsessão

Edição publicada pela Rocco.
Patrícia Melo despontou em meados da década de 1990 como um dos grandes nomes da ficção brasileira contemporânea. Suas narrativas ágeis, instantâneas, aliadas ao despojamento da forma e às frases de estrutura concisa, atigiram o auge com a publicação de O Matador (1995).

As marcas de sua experiência como roteirista de cinema e TV estão latentes nos cortes rápidos das cenas e na fala sempre caótica dos narradores. Em Valsa Negra, romance de 2003, o relato obssessivo de um maestro toma o lugar dos narradores marginais de seus romances de estreia. 

Como sugere na epígrafe — "O ódio é indistinguível do amor" (que a autora foi buscar em Catulo, poeta romano de um período anterior à era cristã) —, o romance se debruça sobre a relação doentia entre um maestro de meia-idade e uma musicista. O ciúme e a obsessão deflagram uma série que crises que resultam no relato do narrador (o próprio maestro). Entre referências à literatura, música erudita, judaísmo e cultura pop, o romance investiga a passionalidade, a paranoia e a miséria existencial.

A mudança do espaço narrativo poderia indicar uma tentativa da autora de dar novos ares à sua obra. Pouco depois da publicação do romance, o namoro entre Patrícia e John Neschling (na época diretor artístico da OSESP), ajudou  a aguçar a curiosidade dos jornalistas e foi usada por alguns como estratégia de marketing: seria Valsa Negra um roman à clef* sobre a fogueira de vaidades nos bastidores da orquestra paulista?

Se o romance é espelho da rotina e dos conflitos de uma orquestra real ou não, jamais saberemos. O fato é que, apesar do abismo que separa os narradores marginais de Patrícia do maestro esnobe que vemos em Valsa Negra, a personalidade conturbada pode ser apontada como traço comum. Além disso, as relações obsessivas e o relato paranoico são dois expedientes comuns nos romances da autora que retornam nesta narrativa.

No entanto, ao centralizar o enredo no universo da cultura erudita, Patrícia deixa transparecer certas fragilidades. Problemas nos diálogos e personagens revelam que a elaboração do romance se deu sobre terreno movediço. Talvez o maior equívoco esteja no personagem principal, cujo nome perpassa a narrativa sem ser revelado. Homem divorciado, provavelmente quarentão, bem-sucedido, egocêntrico, ciumento e perturbado. A própria capacidade de se prender a um estereótipo poderia servir de argumento para revelar fragilidades dos personagens. Mas autores como Dickens e Naipaul souberam provar que o conflito entre personagem plano versus redondo não é critério absoluto para valoração de um texto.

A graça dos personagens de Patrícia está justamente em, após uma apresentação superficial e estereotipada, eles revelarem, por meio de um relato desajustado e paranoico, traços de humanidade e empatia. Em Valsa Negra, eles parecem não mais que o resultado de um retrato caricatural das elites.

As elites em Valsa Negra parecem saídas de um roteiro de telenovela. Composta majoritariamente de judeus esnobes e discretíssimos, ela perambula por jantares, cidades europeias, lojas de grife e hoteis do bairro paulistano dos Jardins. A autora chega a citar o nome das ruas e a numeração dos endereços por onde os personagens transitam. O expediente que ajudaria a dar às situações um caráter mais crível parece perdido em uma atmosfera de esvaziamento e frivolidade.

Alguns trechos revelam certa graça, mas a maioria repisa conceitos já trabalhados pela autora em outros romances. As reflexões sobre a degradação urbana e as diferenças sociais soam ocas, como uma tentativa frustada de fazer experiências sensoriais ou plásticas dentro do texto:


Nenhuma árvore, só asfalto. Não eram nem dez da manhã, e o relógio do estádio do Pacaembu marcava vinte e sete graus. O verão paulistano é de fato uma coisa terrível. Mal o sol desponta, a cidade já recomeça a apodrecer bem diante de nossos olhos. Tudo é fermentável, efervescente e fétido no calor, nem sequer de noite, quando sopra uma brisa morna ou despenca um temporal, é possível deixar de sentir os odores malcheirosos da metrópole. Só mesmo uma grande cidade como São Paulo é capaz de feder e apodrecer dessa maneira tão escandalosa. As feiras livres e as toneladas de lixo que botamos nas ruas se encarregam de potencializar as emanações pestilentas. [...]


A fragilidade está justamente em tentar aliar a fala informal dos personagens típicos da autora ao repertório erudito do maestro que ela tenta construir. O discurso de execração da  paisagem urbana soa um tanto falso quando temos expressões como "emanações pestilentas" inseridas na fala antes franca e despojada do narrador.

Um recurso de avaliação seria interpretar Valsa negra como um livro de transição, experimental: uma tentativa da autora de expandir sua técnica de escrita transferindo-a para um universo oposto. O resultado, infelizmente, fica muito aquém do apresentado por textos como Inferno (espécie de "romance de personagem" e retrato da criminalidade nas favelas cariocas) e o excelente O matador. Neste livro, sem dúvida, Patrícia Melo passa longe do êxito narrativo.



* Expressão francesa que designa a forma narrativa na qual o autor trata de pessoas reais por meio de personagens fictícios.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

"Dois Irmãos": conflito e dualidade*

*Contém dados sobre o enredo.

Capa para a primeira edição,
publicada em 2001.
O romance Dois irmãos, de Milton Hatoum, tem como base a relação de ódio entre dois irmãos gêmeos. Sugerido pelo título, o confronto entre dois polos distintos se estende pelo romance, pautando as relações entre os personagens e a construção do espaço onde a ação se desenvolve.

A base do enredo é o relacionamento conflituoso entre dois irmãos gêmeos. São eles Yaqub e Omar: o primeiro, diligente e circunspecto, o segundo, boêmio e lascivo. Noutro plano, o autor explora o princípio da dualidade por meio do espaço narrativo: as diferenças entre a vida provinciana, representada pela decadência de Manaus, e a pujança da metrópole, representada pelo progresso de São Paulo.

Partindo desta premissa, Milton Hatoum vai construindo uma narrativa que acompanha a formação da personalidade dos protagonistas a partir da dinâmica da vida familiar. Omar e Yaqub fazem parte de um clã de origem libanesa que vive em Manaus. Isso serve de pretexto para o autor introduzir elementos oriundos da rotina dos imigrantes: do dia a dia no comércio às reminiscências do país de origem.

As lembranças da terra natal, inclusive, podem ser apontadas como um dos temas essenciais do romance de estreia do autor. Relato de um certo oriente, publicado em 1989, apresenta a história de uma mulher que, ao revisitar a cidade de sua infância após vinte anos de afastamento, tenta reconstruir o próprio passado. A distância entre este romance e o segundo, precisamente onze anos, foi importante para o autor. Hatoum costuma dizer que “cada livro nos ensina a escrever”. Levando sua premissa ao pé da letra, pode-se dizer que nenhum livro lhe ensinou tanto quando Dois irmãos. O romance apresenta uma escrita concisa e ao mesmo tempo cheia de sutilezas e nuances:

[...] Algo do comportamento dele me escapava; ele me deixou uma impressão ambígua, de alguém duro, resoluto e altivo, mas ao mesmo tempo marcado por uma sofreguidão que se assemelhava a uma forma de afeto.


A escrita é direta (“duro, resoluto e altivo”), mas, justamente por conta de seu caráter objetivo, consegue demarcar de forma clara os aspectos relacionados ao estado emocional dos personagens (“marcado por uma sofreguidão que se assemelhava a uma forma de afeto”). Em outro trecho, o narrador, que também faz parte da trama, compartilha a angústia de não saber a identidade do pai:

[...] Perguntei à minha mãe o que eles tinham conversado quando ele entrou no quarto dela. O que havia entre os dois? Tive coragem de lhe perguntar se Yaqub era o meu pai.


Hatoum mistura relato fragmentário à cultura
amazonense para contar a história de um
conflito que atravessa uma geração de um
clã de imigrantes de origem libanesa.
O narrador de Dois irmãos pode ser classificado como narrador-testemunha. Isso porque seu relato privilegia a vida de outrem – os gêmeos e os personagens que fazem parte do núcleo familiar. Durante a narrativa, Nael associa episódios e cenas da vida familiar à sua busca pela figura paterna. Por conta de sua natureza, o narrador apresenta uma visão entrecortada dos acontecimentos, marcada por desvios temporais, avançando e recuando em seu relato. Ora apresenta fatos importantes para o esclarecimento da trama, ora os deixa em suspenso.

A partir deste princípio de desconstrução cronológica, o romance começa com uma apresentação onde é narrada a morte de Zana, a matriarca. Em situação de grande desespero, ela encontra no silêncio a resposta para sua última pergunta: “Meus filhos já fizeram as pazes?”. No primeiro capítulo, o narrador focaliza o retorno de Yaqub após um exílio forçado no Líbano. O motivo de sua viagem é apresentado por meio de mais um recuo temporal: na tentativa de evitar um conflito entre os gêmeos, a separação acaba radicalizando as diferenças surgidas em tempos remotos da infância – e que se acentuam ao longo de toda a narrativa.

O primeiro grande confronto entre os gêmeos acontece durante uma sessão de cinema. Uma pane no aparelho projetor coloca diante da plateia a imagem dos lábios de Lívia colados ao rosto de Yaqub. A cena desperta o ciúme de Omar, que há tempos vinha disputando a atenção da moça com o irmão. Num golpe de fúria, o caçula quebra uma garrafa e ataca Yaqub. A cicatriz produzida pelo incidente o acompanha pelo resto da vida, alimentando o rancor pela família e o ódio por Omar.

Percebendo o risco da convivência entre os dois após o incidente, Halim decide enviar o filho mais velho para uma aldeia remota no Líbano. Por insistência de Zana, o caçula permanece em Manaus. Tendo de deixar a família e a cidade onde nascera, Yaqub sofre a primeira grande derrota para o irmão. Ao retornar, ainda que modificado pela vida rude e severa no interior da aldeia, o filho mais velho conserva o sentimento de ódio pelo caçula.

Após o retorno, Yaqub se dedica aos estudos e acaba por revelar-se um matemático de talento promissor. Enquanto isso, Omar, que permanecera sob os cuidados e mimos incessantes da mãe, mostra-se inquieto e indisciplinado.

A partir deste ponto da narrativa, a presença dos gêmeos como duas forças opostas ganha ainda mais ênfase. A dinâmica da vida familiar vai moldando as personalidades de Omar e Yaqub, criando relações de identidade e aumentando as diferenças entre os dois. As distâncias se acentuam quando Yaqub se muda para São Paulo com o objetivo de aprimorar seus estudos. O conflito entre a cidade e a província se torna claro durante uma conversa entre o filho mais velho e seu professor, o padre Bolislau: “Se ficares aqui, serás derrotado pela província e devorado pelo teu irmão.” Enquanto isso, Omar segue preso pelo ciúme doentio de Zana. Superprotegido, fruto de uma criação indulgente e permissiva, o caçula mostra-se indócil e desregrado.

Já em São Paulo, Yaqub passa a se corresponder com a família por meio de cartas que, com o passar do tempo, tornam-se cada vez mais lacônicas. Após formar-se em engenharia, o filho mais velho prospera profissionalmente e casa-se com Lívia (sem que seus pais tomem conhecimento da identidade da moça). Nesse ínterim, Omar, entregue à boêmia, leva uma vida regada a festas e bebedeira. As mulheres com quem o caçula se envolve despertam uma série de desentendimentos, que culminam com sua partida para São Paulo. Durante um curto espaço de tempo, Omar demonstra comportamento exemplar.

Logo depois, chega a notícia do desaparecimento de Omar. Antes da fuga, porém, o caçula descobre a identidade da esposa do irmão. Cego de ódio, ele cobre as fotos do casamento de Yaqub com desenhos obscenos. Além disso, rouba-lhe o passaporte e uma grande quantia em dinheiro.

A entrada dos personagens na vida adulta é importante para confirmar os traços de personalidade delineados nos primeiros capítulos do romance. Yaqub radicaliza sua timidez e a converte em um hermetismo levado ao extremo. Suas opiniões e pensamentos quase nunca são assimilados pelo narrador. Antes que alguém possa captá-los, o personagem se deixa tomar pelo sentimento de rancor:

Zana lhe perguntou por que a esposa não tinha vindo a Manaus, e ele apenas olhou para a mãe, altaneiro, sabendo que podia irritá-la com o silêncio.
"Quer dizer que não vou conhecer minha nora?", insistiu a mãe. "Ela está com medo do calor ou pensa que somos bichos?"
"O outro filho vai te dar uma nora e tanto", disse Yaqub, secamente. "Uma nora tão exemplar quanto ele."
Zana preferiu não responder.


Além do amadurecimento dos protagonistas, outra transição importante para a construção do enredo é a mudança de Yaqub para São Paulo. Na narrativa de Dois irmãos, a floresta e a metrópole não servem meramente como pano de fundo, mas tornam-se personagens decisivos dentro da dinâmica do romance. Ao mesmo tempo em que a ascensão de Yaqub é fruto de investimento pessoal e do trabalho, São Paulo é representada como símbolo do progresso e da prosperidade. Enquanto que, tanto para Omar quanto para a cidade de Manaus, o passar dos anos resultou em ruína e decadência. Os dias de glória do ciclo da borracha surgem como parte de um período luminoso, reavivado pela memória de Halim, o líder do clã, e pelos relatos do narrador, numa tentativa incessante de resgate do próprio passado.

Dentro desse contexto, as recordações surgem como instrumento importante para a construção das cenas. O uso da não-linearidade reforça o viés memorialista da narrativa. Calcado nos relatos de Nael, o romance ora expõe os acontecimentos, ora os deixa em suspenso. Os problemas são revelados ao leitor aos poucos, conforme o narrador rememora fatos esclarecedores e os encadeia para solucionar os enigmas da história.
Outro aspecto importante é o estilo enxuto com que Hatoum compõe seu texto. A forma direta com que autor expõe os fatos não esconde seu domínio sobre a técnica da ficção. Temas como o incesto, a rivalidade e o ciúme surgem atreladas às imagens sutis que o autor produz com o uso da linguagem.

Obra de qualidades raras, Dois irmãos pode ser lida como uma espécie de fábula arquetípica sobre o ódio, em que o confronto entre dois gêmeos nos remete aos mitos da Antiguidade. A presença dos dois protagonistas em oposição reflete com clareza a noção dualidade, atuando como motor das intrigas que movem a narrativa. Noutro plano, há de se destacar a dimensão alegórica do livro, que transforma os irmãos em disputa, Omar e Yaqub, em emblemas de "dois Brasis" que jamais se reconciliam. Todas as leituras são pertinentes. Mais que isso, elas se completam.