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sábado, 22 de dezembro de 2012

João Antônio em edição imperdível

Contos reunidos traz textos
inéditos do autor e encarte
com manuscritos
“João Antônio faz para as esferas malditas da sociedade urbana o que Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão, isto é, elabora uma linguagem que parece brotar espontaneamente do meio em que é usada,mas na verdade se torna língua geral dos homens, por ser fruto de uma estilização eficiente”. É o que diz Antonio Candido na quarta capa da edição primorosa que acaba de ser lançada pela Cosac Naify.

Para além das qualidades literárias do texto, o que chama a atenção nesta edição é a beleza do projeto gráfico e o acabamento impecável. O volume traz uma série de ilustrações baseadas em material de arquivo do próprio autor. São manuscritos, bilhetes de loteria, anotações em versos de maço de cigarro. Além disso, foi incluído um livreto intitulado Vocabulário das ruasuma caderneta de endereços e telefones onde autor registrava gírias e expressões que ouvia em seu trânsito pelos ambientes que frequentou.



domingo, 15 de julho de 2012

Pós-Flip: Capas para Drummond

Já era de se esperar que, com sua obra relançada este ano e tendo sido o escritor homenageado na FLIP, o poeta mineiro teria destaque nos lançamentos das semanas pós-festival. Abaixo, capas para as sete faces de Carlos Drummond de Andrade:


Poesia 1930-62. Capa modernista para a edição crítica da Cosac Naify. 



Design minimalista da warrakloureiro para José — seleção de doze poemas, incluindo o que dá título ao livro. 



Capa para As Impurezas do Branco, também da warrak, segue a linha fundo branco, recorte de uma obra de arte e tipos bastonados no título e no nome do autor. Discretas, as peças criadas para a coleção seguem a linha de modernização dos projetos gráficos para edições de autores brasileiros — algo que a Companhia das Letras já vinha fazendo com as coleções de Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles.



A Cosac ainda selecionou 25 poemas inéditos do escritor mineiro num belo volume de capa dura. A cor vibrante e o recorte da tipografia ajudam a preencher um projeto com poucos elementos. Mais um daqueles pequenos mimos feitos para enfeitar estante — e encher os olhos de qualquer designer.

sábado, 28 de abril de 2012

No panteão das artes gráficas

Sempre fui fã do trabalho de João Baptista da Costa Aguiar. Desde que comecei a estudar produção editorial, o trabalho dele foi — sem sombra de dúvida — o que sempre me causou maior impacto.

João Baptista da Costa Aguiar 
- Desenho Gráfico (1980-2006), 
publicado pela Editora 
Senac São Paulo
Foi através de uma pesquisa envolvendo as criações de artistas gráficos brasileiros para um trabalho acadêmico que entrei em contato com o livro João Baptista da Costa Aguiar — Desenho gráfico (1980-2006), publicado pela Editora Senac. Desde então, fico cada vez mais fascinado pela capacidade de criação que sua obra gráfica apresenta.

Tudo porque, além da inventividade representada em produções como as capas para A Marca Humana, do norte-americano Philip Roth, e Timbuktu, de Paul Auster, podemos conhecer melhor o repertório por trás das obras deste artista gráfico: os critérios levados em conta durante a concepção de um projeto, além das interferências que ocorrem durante o trabalho com design editorial — no que diz respeito à relação entre autor, editor e artista gráfico (inserida nos procedimentos que fazem parte da rotina do processo de produção de um livro). 

No trabalho de João Baptista, nota-se um talento especial na concepção de projetos para coleções literárias. Para cada autor, uma padrão gráfico diferente — ora levando em conta a subjetividade, ora apresentando um discurso que conceitue determinado projeto. É o que acontece com a capa produzida para Um Crime Delicado, do escritor carioca Sérgio Sant'Anna. O designer parte do enredo, centrado no universo da indústria cultural, e que tem como personagens um crítico de arte, um artista plástico e uma modelo. 


Desde a criação da capa para A Marca Humana
projeto editorial para as traduções dos livros
 de Roth segue o padrão de manchas.






Para Timbuktu, um osso
em forma de T sugere um
movimento ascendente.
Referência ao cão que dá
título ao livro e a um espaço
imaginário, espécie de paraíso
em que cães e humanos
falariam a mesma língua.













Ainda sobre Um Crime Delicado, cuja capa se apropria da pintura Pigmaleão e Galatéia (1860), do francês Jean-Léon Gerôme, faz-se referência ao caráter perverso e amoral dos personagens. Na quarta-capa, a tela As Meninas (1656), objeto de análise de centenas de estudos teóricos (e imagem-cânone da pintura ocidental), é exposta dentro de uma moldura dourada. Completa-se, então, o jogo de imagens, que brinca com as diversas interpretações dedicadas à obra do espanhol Diego Velázquez.


Capa para Um Crime Delicado,
que se apropria do repertório
de acadêmicos e críticos de 
arte para representar uma 
história ambientada no universo
da indústria cultural.














Discursos de menor complexidade também podem render bons projetos. É que se vê na série de logos criada para a Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo (1989-1992) e nos selos criados para a editora Companhia das Letras, com vinhetas e desenhos que ilustram uma concepção de design baseada no figurativismo. Vale comentar ainda os bons exemplos de combinação tipográfica nas capas criadas para a coleção Jornalismo Literário, em que Baptista abusa do conhecimento da tipografia, adquirido na época em que pintava os letreiros de programas da extinta TV Tupi.

Série de logotipos para a SMC se vale da associação de ícones a um tema específico. Para espetáculos de dança, a imagem de uma bailarina; para literatura, o rosto do escritor Oswald de Andrade. Este conceito de design figurativo já havia sido utilizado três anos antes nos selos da editora Companhia das Letras.

Marcado pela linguagem dos cartazes de rua, o trabalho de João Baptista da Costa Aguiar representa a força criativa das artes gráficas no Brasil — por meio de um trabalho com forte marca pessoal, fugindo dos cânones funcionalistas do design gráfico brasileiro.