domingo, 15 de julho de 2012

Infância: cenas da vida na província

O intuito do blog não é falar de lançamentos, exclusivamente. Essa resolução leva em conta a imensa variedade de títulos lançados a cada mês, sendo praticamente impossível avaliá-los com qualidade e de forma criteriosa, analisando com cuidado os atributos de cada texto. Portanto, antes de serem resenhas, grande parte do que será publicado reflete o prazer obtido por meio de determinadas leituras. Escolhidas seja pelo interesse prévio ou pelos comentários ouvidos de gente que também aprecia bons livros. Hoje, um texto de J. M. Coetzee,  escritor sul-africano ganhador do Nobel de Literatura em 2003. Trata-se do volume de estreia de sua trilogia autobiográfica. Os subsequentes Juventude e Verão serão discutidos em outra oportunidade.

Capa para a coleção de bolso da Companhia das Letras,
o desenho é do australiano Jeff Fisher
Em Infância, o autor transforma a banalidade do cotidiano em matéria-prima para o resgate de um período obscuro de sua trajetória pessoal. Abrindo mão dos eufemismos, uma época que para a maioria das pessoas é vista de forma colorida e vivaz adquire ares soturnos.

Através da marca que Coetzee imprime a seus textos — sempre conciso, demonstrando precisão e grande domínio técnico sobre a narrativa — o leitor é convidado a compartilhar da infância atormentada de um menino: das diferenças de costume entre ingleses e nativos; da violência que permeia o dia a dia na escola; da sensação de sufocamento decorrente da superproteção da mãe; e da repulsa pela figura paterna.

A construção da identidade é o tema central deste livro, cuja clareza nas descrições acaba levando o leitor a perceber um conflito entre autor e narrador: vemos o protagonista e sua existência devassados por um narrador que, inevitavelmente, não é nada além de uma extensão de seu autor.

Durante todo o livro, as contradições decorrentes da formação da personalidade são expostas com crueza e autoconsciência assustadoras. O domínio que o narrador demonstra durante a construção da história contrasta com a mentalidade ora ingênua, ora maliciosa, de John. Cada passo é calculado, de forma que é difícil saber até que ponto a maturidade de uma criança não guarda ecos das experiências vividas pelo próprio autor já em sua fase adulta.

Infância é costurado por uma série de episódios decisivos para a definição do caráter de uma criança, e para o estabelecimento dos limites em seu relacionamento em família. A mãe e o pai são mostrados como figuras abstratas e incoerentes, perdidas em meio a um casamento despedaçado. A rotina de ódio e brutalidade que acompanha a vida na província parece se estender ao convívio doméstico. O sentimento de estranheza em relação à mãe e o desprezo pelo pai são reflexos daquele modo de viver. Hostil, seco, rude.

Um dos trechos mais comoventes — e belos — de Infância aparece ainda no começo do livro, quando o protagonista se assusta com a ameaça que uma bicicleta impõe ao sentimento de exclusividade que ele reivindica em relação à mãe:

No começo, ele achou maravilhoso que a mãe possuísse uma bicicleta. Chegou a imaginar os três pedalando pela Avenida dos Choupos — ela, ele e seu irmão. Mas agora, ouvindo as piadas do pai, que a mãe retribui apenas com um silêncio obstinado, começa a hesitar. Mulheres não andam de bicicleta — e se o pai tiver razão? Se a mãe não encontrar alguém disposto a ensiná-la, se nenhuma outra dona de casa de Reunion Park tiver uma bicicleta, talvez as mulheres não devam andar de bicicleta.

No quintal atrás da casa, a mãe tenta aprender sozinha. Com as pernas estendidas até o chão, ela roda pelo caminho que vai até o galinheiro. A bicicleta se inclina e para. Como o modelo não tem o cano do meio, ela não cai, só tropeça um pouco de um jeito bobo, agarrada ao guidom.

O coração dele se volta contra ela. Naquela noite, junta-se ao pai na zombaria. Sabe muito bem que é traição. Agora a mãe está sozinha.


Para fugir da dureza do mundo e do deslocamento em relação a si mesmo e aos outros, John encontra abrigo na introspecção, fazendo com que o leitor compartilhe da construção de sua personalidade fechada e solitária. Assim, a narrativa se constrói a partir da amargura que contamina as lembranças do protagonista. É como diz o narrador: "[...] se ele não lembrar, quem o fará?"

Pós-Flip: Capas para Drummond

Já era de se esperar que, com sua obra relançada este ano e tendo sido o escritor homenageado na FLIP, o poeta mineiro teria destaque nos lançamentos das semanas pós-festival. Abaixo, capas para as sete faces de Carlos Drummond de Andrade:


Poesia 1930-62. Capa modernista para a edição crítica da Cosac Naify. 



Design minimalista da warrakloureiro para José — seleção de doze poemas, incluindo o que dá título ao livro. 



Capa para As Impurezas do Branco, também da warrak, segue a linha fundo branco, recorte de uma obra de arte e tipos bastonados no título e no nome do autor. Discretas, as peças criadas para a coleção seguem a linha de modernização dos projetos gráficos para edições de autores brasileiros — algo que a Companhia das Letras já vinha fazendo com as coleções de Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles.



A Cosac ainda selecionou 25 poemas inéditos do escritor mineiro num belo volume de capa dura. A cor vibrante e o recorte da tipografia ajudam a preencher um projeto com poucos elementos. Mais um daqueles pequenos mimos feitos para enfeitar estante — e encher os olhos de qualquer designer.