quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

"Dois Irmãos": conflito e dualidade*

*Contém dados sobre o enredo.

Capa para a primeira edição,
publicada em 2001.
O romance Dois irmãos, de Milton Hatoum, tem como base a relação de ódio entre dois irmãos gêmeos. Sugerido pelo título, o confronto entre dois polos distintos se estende pelo romance, pautando as relações entre os personagens e a construção do espaço onde a ação se desenvolve.

A base do enredo é o relacionamento conflituoso entre dois irmãos gêmeos. São eles Yaqub e Omar: o primeiro, diligente e circunspecto, o segundo, boêmio e lascivo. Noutro plano, o autor explora o princípio da dualidade por meio do espaço narrativo: as diferenças entre a vida provinciana, representada pela decadência de Manaus, e a pujança da metrópole, representada pelo progresso de São Paulo.

Partindo desta premissa, Milton Hatoum vai construindo uma narrativa que acompanha a formação da personalidade dos protagonistas a partir da dinâmica da vida familiar. Omar e Yaqub fazem parte de um clã de origem libanesa que vive em Manaus. Isso serve de pretexto para o autor introduzir elementos oriundos da rotina dos imigrantes: do dia a dia no comércio às reminiscências do país de origem.

As lembranças da terra natal, inclusive, podem ser apontadas como um dos temas essenciais do romance de estreia do autor. Relato de um certo oriente, publicado em 1989, apresenta a história de uma mulher que, ao revisitar a cidade de sua infância após vinte anos de afastamento, tenta reconstruir o próprio passado. A distância entre este romance e o segundo, precisamente onze anos, foi importante para o autor. Hatoum costuma dizer que “cada livro nos ensina a escrever”. Levando sua premissa ao pé da letra, pode-se dizer que nenhum livro lhe ensinou tanto quando Dois irmãos. O romance apresenta uma escrita concisa e ao mesmo tempo cheia de sutilezas e nuances:

[...] Algo do comportamento dele me escapava; ele me deixou uma impressão ambígua, de alguém duro, resoluto e altivo, mas ao mesmo tempo marcado por uma sofreguidão que se assemelhava a uma forma de afeto.


A escrita é direta (“duro, resoluto e altivo”), mas, justamente por conta de seu caráter objetivo, consegue demarcar de forma clara os aspectos relacionados ao estado emocional dos personagens (“marcado por uma sofreguidão que se assemelhava a uma forma de afeto”). Em outro trecho, o narrador, que também faz parte da trama, compartilha a angústia de não saber a identidade do pai:

[...] Perguntei à minha mãe o que eles tinham conversado quando ele entrou no quarto dela. O que havia entre os dois? Tive coragem de lhe perguntar se Yaqub era o meu pai.


Hatoum mistura relato fragmentário à cultura
amazonense para contar a história de um
conflito que atravessa uma geração de um
clã de imigrantes de origem libanesa.
O narrador de Dois irmãos pode ser classificado como narrador-testemunha. Isso porque seu relato privilegia a vida de outrem – os gêmeos e os personagens que fazem parte do núcleo familiar. Durante a narrativa, Nael associa episódios e cenas da vida familiar à sua busca pela figura paterna. Por conta de sua natureza, o narrador apresenta uma visão entrecortada dos acontecimentos, marcada por desvios temporais, avançando e recuando em seu relato. Ora apresenta fatos importantes para o esclarecimento da trama, ora os deixa em suspenso.

A partir deste princípio de desconstrução cronológica, o romance começa com uma apresentação onde é narrada a morte de Zana, a matriarca. Em situação de grande desespero, ela encontra no silêncio a resposta para sua última pergunta: “Meus filhos já fizeram as pazes?”. No primeiro capítulo, o narrador focaliza o retorno de Yaqub após um exílio forçado no Líbano. O motivo de sua viagem é apresentado por meio de mais um recuo temporal: na tentativa de evitar um conflito entre os gêmeos, a separação acaba radicalizando as diferenças surgidas em tempos remotos da infância – e que se acentuam ao longo de toda a narrativa.

O primeiro grande confronto entre os gêmeos acontece durante uma sessão de cinema. Uma pane no aparelho projetor coloca diante da plateia a imagem dos lábios de Lívia colados ao rosto de Yaqub. A cena desperta o ciúme de Omar, que há tempos vinha disputando a atenção da moça com o irmão. Num golpe de fúria, o caçula quebra uma garrafa e ataca Yaqub. A cicatriz produzida pelo incidente o acompanha pelo resto da vida, alimentando o rancor pela família e o ódio por Omar.

Percebendo o risco da convivência entre os dois após o incidente, Halim decide enviar o filho mais velho para uma aldeia remota no Líbano. Por insistência de Zana, o caçula permanece em Manaus. Tendo de deixar a família e a cidade onde nascera, Yaqub sofre a primeira grande derrota para o irmão. Ao retornar, ainda que modificado pela vida rude e severa no interior da aldeia, o filho mais velho conserva o sentimento de ódio pelo caçula.

Após o retorno, Yaqub se dedica aos estudos e acaba por revelar-se um matemático de talento promissor. Enquanto isso, Omar, que permanecera sob os cuidados e mimos incessantes da mãe, mostra-se inquieto e indisciplinado.

A partir deste ponto da narrativa, a presença dos gêmeos como duas forças opostas ganha ainda mais ênfase. A dinâmica da vida familiar vai moldando as personalidades de Omar e Yaqub, criando relações de identidade e aumentando as diferenças entre os dois. As distâncias se acentuam quando Yaqub se muda para São Paulo com o objetivo de aprimorar seus estudos. O conflito entre a cidade e a província se torna claro durante uma conversa entre o filho mais velho e seu professor, o padre Bolislau: “Se ficares aqui, serás derrotado pela província e devorado pelo teu irmão.” Enquanto isso, Omar segue preso pelo ciúme doentio de Zana. Superprotegido, fruto de uma criação indulgente e permissiva, o caçula mostra-se indócil e desregrado.

Já em São Paulo, Yaqub passa a se corresponder com a família por meio de cartas que, com o passar do tempo, tornam-se cada vez mais lacônicas. Após formar-se em engenharia, o filho mais velho prospera profissionalmente e casa-se com Lívia (sem que seus pais tomem conhecimento da identidade da moça). Nesse ínterim, Omar, entregue à boêmia, leva uma vida regada a festas e bebedeira. As mulheres com quem o caçula se envolve despertam uma série de desentendimentos, que culminam com sua partida para São Paulo. Durante um curto espaço de tempo, Omar demonstra comportamento exemplar.

Logo depois, chega a notícia do desaparecimento de Omar. Antes da fuga, porém, o caçula descobre a identidade da esposa do irmão. Cego de ódio, ele cobre as fotos do casamento de Yaqub com desenhos obscenos. Além disso, rouba-lhe o passaporte e uma grande quantia em dinheiro.

A entrada dos personagens na vida adulta é importante para confirmar os traços de personalidade delineados nos primeiros capítulos do romance. Yaqub radicaliza sua timidez e a converte em um hermetismo levado ao extremo. Suas opiniões e pensamentos quase nunca são assimilados pelo narrador. Antes que alguém possa captá-los, o personagem se deixa tomar pelo sentimento de rancor:

Zana lhe perguntou por que a esposa não tinha vindo a Manaus, e ele apenas olhou para a mãe, altaneiro, sabendo que podia irritá-la com o silêncio.
"Quer dizer que não vou conhecer minha nora?", insistiu a mãe. "Ela está com medo do calor ou pensa que somos bichos?"
"O outro filho vai te dar uma nora e tanto", disse Yaqub, secamente. "Uma nora tão exemplar quanto ele."
Zana preferiu não responder.


Além do amadurecimento dos protagonistas, outra transição importante para a construção do enredo é a mudança de Yaqub para São Paulo. Na narrativa de Dois irmãos, a floresta e a metrópole não servem meramente como pano de fundo, mas tornam-se personagens decisivos dentro da dinâmica do romance. Ao mesmo tempo em que a ascensão de Yaqub é fruto de investimento pessoal e do trabalho, São Paulo é representada como símbolo do progresso e da prosperidade. Enquanto que, tanto para Omar quanto para a cidade de Manaus, o passar dos anos resultou em ruína e decadência. Os dias de glória do ciclo da borracha surgem como parte de um período luminoso, reavivado pela memória de Halim, o líder do clã, e pelos relatos do narrador, numa tentativa incessante de resgate do próprio passado.

Dentro desse contexto, as recordações surgem como instrumento importante para a construção das cenas. O uso da não-linearidade reforça o viés memorialista da narrativa. Calcado nos relatos de Nael, o romance ora expõe os acontecimentos, ora os deixa em suspenso. Os problemas são revelados ao leitor aos poucos, conforme o narrador rememora fatos esclarecedores e os encadeia para solucionar os enigmas da história.
Outro aspecto importante é o estilo enxuto com que Hatoum compõe seu texto. A forma direta com que autor expõe os fatos não esconde seu domínio sobre a técnica da ficção. Temas como o incesto, a rivalidade e o ciúme surgem atreladas às imagens sutis que o autor produz com o uso da linguagem.

Obra de qualidades raras, Dois irmãos pode ser lida como uma espécie de fábula arquetípica sobre o ódio, em que o confronto entre dois gêmeos nos remete aos mitos da Antiguidade. A presença dos dois protagonistas em oposição reflete com clareza a noção dualidade, atuando como motor das intrigas que movem a narrativa. Noutro plano, há de se destacar a dimensão alegórica do livro, que transforma os irmãos em disputa, Omar e Yaqub, em emblemas de "dois Brasis" que jamais se reconciliam. Todas as leituras são pertinentes. Mais que isso, elas se completam.

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