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| Edição publicada pela Rocco. |
As marcas de sua experiência como roteirista de cinema e TV estão latentes nos cortes rápidos das cenas e na fala sempre caótica dos narradores. Em Valsa Negra, romance de 2003, o relato obssessivo de um maestro toma o lugar dos narradores marginais de seus romances de estreia.
Como sugere na epígrafe — "O ódio é indistinguível do amor" (que a autora foi buscar em Catulo, poeta romano de um período anterior à era cristã) —, o romance se debruça sobre a relação doentia entre um maestro de meia-idade e uma musicista. O ciúme e a obsessão deflagram uma série que crises que resultam no relato do narrador (o próprio maestro). Entre referências à literatura, música erudita, judaísmo e cultura pop, o romance investiga a passionalidade, a paranoia e a miséria existencial.
A mudança do espaço narrativo poderia indicar uma tentativa da autora de dar novos ares à sua obra. Pouco depois da publicação do romance, o namoro entre Patrícia e John Neschling (na época diretor artístico da OSESP), ajudou a aguçar a curiosidade dos jornalistas e foi usada por alguns como estratégia de marketing: seria Valsa Negra um roman à clef* sobre a fogueira de vaidades nos bastidores da orquestra paulista?
Se o romance é espelho da rotina e dos conflitos de uma orquestra real ou não, jamais saberemos. O fato é que, apesar do abismo que separa os narradores marginais de Patrícia do maestro esnobe que vemos em Valsa Negra, a personalidade conturbada pode ser apontada como traço comum. Além disso, as relações obsessivas e o relato paranoico são dois expedientes comuns nos romances da autora que retornam nesta narrativa.
No entanto, ao centralizar o enredo no universo da cultura erudita, Patrícia deixa transparecer certas fragilidades. Problemas nos diálogos e personagens revelam que a elaboração do romance se deu sobre terreno movediço. Talvez o maior equívoco esteja no personagem principal, cujo nome perpassa a narrativa sem ser revelado. Homem divorciado, provavelmente quarentão, bem-sucedido, egocêntrico, ciumento e perturbado. A própria capacidade de se prender a um estereótipo poderia servir de argumento para revelar fragilidades dos personagens. Mas autores como Dickens e Naipaul souberam provar que o conflito entre personagem plano versus redondo não é critério absoluto para valoração de um texto.
A graça dos personagens de Patrícia está justamente em, após uma apresentação superficial e estereotipada, eles revelarem, por meio de um relato desajustado e paranoico, traços de humanidade e empatia. Em Valsa Negra, eles parecem não mais que o resultado de um retrato caricatural das elites.
As elites em Valsa Negra parecem saídas de um roteiro de telenovela. Composta majoritariamente de judeus esnobes e discretíssimos, ela perambula por jantares, cidades europeias, lojas de grife e hoteis do bairro paulistano dos Jardins. A autora chega a citar o nome das ruas e a numeração dos endereços por onde os personagens transitam. O expediente que ajudaria a dar às situações um caráter mais crível parece perdido em uma atmosfera de esvaziamento e frivolidade.
Alguns trechos revelam certa graça, mas a maioria repisa conceitos já trabalhados pela autora em outros romances. As reflexões sobre a degradação urbana e as diferenças sociais soam ocas, como uma tentativa frustada de fazer experiências sensoriais ou plásticas dentro do texto:
Nenhuma árvore, só asfalto. Não eram nem dez da manhã, e o relógio do estádio do Pacaembu marcava vinte e sete graus. O verão paulistano é de fato uma coisa terrível. Mal o sol desponta, a cidade já recomeça a apodrecer bem diante de nossos olhos. Tudo é fermentável, efervescente e fétido no calor, nem sequer de noite, quando sopra uma brisa morna ou despenca um temporal, é possível deixar de sentir os odores malcheirosos da metrópole. Só mesmo uma grande cidade como São Paulo é capaz de feder e apodrecer dessa maneira tão escandalosa. As feiras livres e as toneladas de lixo que botamos nas ruas se encarregam de potencializar as emanações pestilentas. [...]
A fragilidade está justamente em tentar aliar a fala informal dos personagens típicos da autora ao repertório erudito do maestro que ela tenta construir. O discurso de execração da paisagem urbana soa um tanto falso quando temos expressões como "emanações pestilentas" inseridas na fala antes franca e despojada do narrador.
Um recurso de avaliação seria interpretar Valsa negra como um livro de transição, experimental: uma tentativa da autora de expandir sua técnica de escrita transferindo-a para um universo oposto. O resultado, infelizmente, fica muito aquém do apresentado por textos como Inferno (espécie de "romance de personagem" e retrato da criminalidade nas favelas cariocas) e o excelente O matador. Neste livro, sem dúvida, Patrícia Melo passa longe do êxito narrativo.
* Expressão francesa que designa a forma narrativa na qual o autor trata de pessoas reais por meio de personagens fictícios.


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