sábado, 22 de dezembro de 2012

"Valsa Negra": entre a paranoia e a obsessão

Edição publicada pela Rocco.
Patrícia Melo despontou em meados da década de 1990 como um dos grandes nomes da ficção brasileira contemporânea. Suas narrativas ágeis, instantâneas, aliadas ao despojamento da forma e às frases de estrutura concisa, atigiram o auge com a publicação de O Matador (1995).

As marcas de sua experiência como roteirista de cinema e TV estão latentes nos cortes rápidos das cenas e na fala sempre caótica dos narradores. Em Valsa Negra, romance de 2003, o relato obssessivo de um maestro toma o lugar dos narradores marginais de seus romances de estreia. 

Como sugere na epígrafe — "O ódio é indistinguível do amor" (que a autora foi buscar em Catulo, poeta romano de um período anterior à era cristã) —, o romance se debruça sobre a relação doentia entre um maestro de meia-idade e uma musicista. O ciúme e a obsessão deflagram uma série que crises que resultam no relato do narrador (o próprio maestro). Entre referências à literatura, música erudita, judaísmo e cultura pop, o romance investiga a passionalidade, a paranoia e a miséria existencial.

A mudança do espaço narrativo poderia indicar uma tentativa da autora de dar novos ares à sua obra. Pouco depois da publicação do romance, o namoro entre Patrícia e John Neschling (na época diretor artístico da OSESP), ajudou  a aguçar a curiosidade dos jornalistas e foi usada por alguns como estratégia de marketing: seria Valsa Negra um roman à clef* sobre a fogueira de vaidades nos bastidores da orquestra paulista?

Se o romance é espelho da rotina e dos conflitos de uma orquestra real ou não, jamais saberemos. O fato é que, apesar do abismo que separa os narradores marginais de Patrícia do maestro esnobe que vemos em Valsa Negra, a personalidade conturbada pode ser apontada como traço comum. Além disso, as relações obsessivas e o relato paranoico são dois expedientes comuns nos romances da autora que retornam nesta narrativa.

No entanto, ao centralizar o enredo no universo da cultura erudita, Patrícia deixa transparecer certas fragilidades. Problemas nos diálogos e personagens revelam que a elaboração do romance se deu sobre terreno movediço. Talvez o maior equívoco esteja no personagem principal, cujo nome perpassa a narrativa sem ser revelado. Homem divorciado, provavelmente quarentão, bem-sucedido, egocêntrico, ciumento e perturbado. A própria capacidade de se prender a um estereótipo poderia servir de argumento para revelar fragilidades dos personagens. Mas autores como Dickens e Naipaul souberam provar que o conflito entre personagem plano versus redondo não é critério absoluto para valoração de um texto.

A graça dos personagens de Patrícia está justamente em, após uma apresentação superficial e estereotipada, eles revelarem, por meio de um relato desajustado e paranoico, traços de humanidade e empatia. Em Valsa Negra, eles parecem não mais que o resultado de um retrato caricatural das elites.

As elites em Valsa Negra parecem saídas de um roteiro de telenovela. Composta majoritariamente de judeus esnobes e discretíssimos, ela perambula por jantares, cidades europeias, lojas de grife e hoteis do bairro paulistano dos Jardins. A autora chega a citar o nome das ruas e a numeração dos endereços por onde os personagens transitam. O expediente que ajudaria a dar às situações um caráter mais crível parece perdido em uma atmosfera de esvaziamento e frivolidade.

Alguns trechos revelam certa graça, mas a maioria repisa conceitos já trabalhados pela autora em outros romances. As reflexões sobre a degradação urbana e as diferenças sociais soam ocas, como uma tentativa frustada de fazer experiências sensoriais ou plásticas dentro do texto:


Nenhuma árvore, só asfalto. Não eram nem dez da manhã, e o relógio do estádio do Pacaembu marcava vinte e sete graus. O verão paulistano é de fato uma coisa terrível. Mal o sol desponta, a cidade já recomeça a apodrecer bem diante de nossos olhos. Tudo é fermentável, efervescente e fétido no calor, nem sequer de noite, quando sopra uma brisa morna ou despenca um temporal, é possível deixar de sentir os odores malcheirosos da metrópole. Só mesmo uma grande cidade como São Paulo é capaz de feder e apodrecer dessa maneira tão escandalosa. As feiras livres e as toneladas de lixo que botamos nas ruas se encarregam de potencializar as emanações pestilentas. [...]


A fragilidade está justamente em tentar aliar a fala informal dos personagens típicos da autora ao repertório erudito do maestro que ela tenta construir. O discurso de execração da  paisagem urbana soa um tanto falso quando temos expressões como "emanações pestilentas" inseridas na fala antes franca e despojada do narrador.

Um recurso de avaliação seria interpretar Valsa negra como um livro de transição, experimental: uma tentativa da autora de expandir sua técnica de escrita transferindo-a para um universo oposto. O resultado, infelizmente, fica muito aquém do apresentado por textos como Inferno (espécie de "romance de personagem" e retrato da criminalidade nas favelas cariocas) e o excelente O matador. Neste livro, sem dúvida, Patrícia Melo passa longe do êxito narrativo.



* Expressão francesa que designa a forma narrativa na qual o autor trata de pessoas reais por meio de personagens fictícios.

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